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O agridoce de ser mãe

Texto publicado pelo Jornal Cinform, caderno Olho Vivo, ed 1779

A maternidade é, sem dúvidas, uma revolução. Para o bem ou para o mal, ninguém sai incólume ao se gerar uma vida. Algo vai mudar, não tenha dúvidas. Mas se você acha que estou aqui para falar de flores, melhor puxar o banquinho, colocar Pablo no player e amassar o cotovelo na mesa. O trem é desgovernado, amiguinhas e amiguinhos. Maternidade é caos.

Talvez alguns pensem: “Alah, lá vem a mal amada falar da ‘maternidade como ela é’. Nada de novo sob o sol das mulheres feministas revolucionárias”; talvez alguns nem se interessem; e talvez seja isso exatamente isso o que está faltando: o real. Maternidade sem photoshop, sem comercial de margarina, sem romantismo. Ser mãe é, enfim, ser; e na existência a perfeição é apenas uma utopia.

Quando desejamos a maternidade – ou quando ela apenas cai no nosso colo –, imaginamos muitas coisas, mas nada nos prepara, de verdade, para o cotidiano de total descontrole que o trabalho exige. Sim, gatinhxs, e-x-i-g-e. Não adianta bradar aos quatro ventos uma total liberdade, ou há entrega nessa parada ou há, sem alternativa. Mergulhar na mater e paternidade (óbvio, pai também é parte disso) é questão de fechar os olhos e pular sem saber a fundura.

Aliás, é mergulhar cheia de dedos porque se tem uma coisinha chata que acompanha a maternidade é a culpa. Por qualquer coisa, viu? Dente escovado mais do lado direito que do esquerdo; um pão em vez da janta; ter que sair no horário do sono. Mas é verdade o que diz Vinícius de Moraes, em Poema Enjoadinho: “Filhos…Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não temos como sabê-los?”.

E lá vamos nós, tê-los uma, duas, três vezes…. Acordar 4 vezes para dar mama e levantar às cinco para arrumar os outros para a escola. E lá se vai a mãe, encarar a si mesma depois de um dia inteiro pensado a existência de outra pessoa. Fez xixi? Bebeu água? Comeu cinco cores numa dieta balanceada durante o almoço? Não é mole não, cara, existir no outro exige e se não houver cuidado a pessoa se perde; afinal, quem sou dentre essas existências que oriento?

Fácil se perder e muito difícil pedir e encontrar ajuda. Ainda mais quando toda a sociedade imputa à mãe toda a responsabilidade de ser ela e outro. Mãe também precisa de colo e de cuidado. Mãe também sente tristeza, cansaço, solidão. Mãe é gente e não adquire uma força sobrenatural quando se percebe mãe não. Essa falácia torna a maternidade ainda mais difícil, ainda mais solitária. Maternidade é uma das situações da vida da mulher e ela precisa de apoio e suporte para continuar mantendo o foco sobre quem ela é e poder ser ela e outro sem se perder.

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Sara, a possessividade e a rivalidade feminina

Sara brincando com uns adesivos de princesas e personagens e criando historinhas veio com o seguinte diálogo entre as princesas:

– Ah, eu vou ganhar essa corrida / Não, não vai nada! / Vou sim, ha ha ha / Volta aqui, sua ladra de namorados….

Acende aquela luzinha de alerta na mamãe que começa a ficar muito atenta ao que sai da boquinha de Sara. E continua:

– Eu não roubei seu namorado / Roubou sim, vem aqui….

Nessa hora, mamãe decide intervir:

– Filha, onde você ouviu essa história de ‘ladra de namorado’?

– Tô só brincando, mamãe… – certamente com medo de uma represália pela frase.

– Filha, estamos só conversando, mamãe só quer saber onde você ouviu isso.

– No tototoys… (mamãe já desconfiava dessa informação….)

– Filha, mamãe precisa te explicar uma cosa, você presta bem atenção? As pessoas tem donos? Mamãe é sua dona? Comprou você em algum lugar, como uma coisa?

– Não, mãe.

– As pessoas não são coisas. Nós não temos as pessoas, estamos com elas. Por isso não existe ‘ladra de namorado’; se o namorado quis ir, foi decisão dele e não alguém que roubou ele, entende?

– Mas é só brincadeira, mamãe.

– Mamãe entende isso, mas mamãe precisa lhe explicar isso. Cada um decide o que é melhor para si, é preciso apenas ser honesto. Certo?

– Entendi. – diz entre o tédio e a recuperação do susto de levar uma bronca. E volta a brincar com os adesivos, mas já não existia ladra nenhuma hahaha….

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Coisas da Bisa

Não tive muita convivência com minhas avós. A mãe da mãe se foi antes que eu viesse ao mundo. A mãe do pai morava em Fortaleza – lugar em que estive pouquíssimas vezes na vida. Mas tive uma bisa. Minha bisa Mariquinha era uma mulher incrível e eu sabia que ela era incrível. Eu tinha medo da velhice, mas ela nunca foi velha pra mim.

Mariquinha adorava forró. Aos 90 anos subia as ladeiras de Neópolis, em Sergipe, para ir se encontrar com os amigos e dançar até não poder mais. Ela não enxergava bem, desde muito nova teve uma perda considerável da visão, mas eu só soube disso porque me disseram, eu jamais poderia adivinhar. Ela morava só, passeava pelas ruas com uma desenvoltura invejável – as ladeiras de Neópolis não são para iniciantes. E era uma pessoa muito engraçada e sábia. Lembro de me ater por horas ouvindo histórias e alisando o braço de pele lisa e fina.

Bisa era sábia, adorava dar conselhos polêmicos para crianças pequenas, como: o marido é o que a mulher faz dele, minha filha;  e coisas do tipo. Eu hoje rio solta lembrando das palavras dela e de todos os ditados que herdei e que são a melhor herança que recebi até hoje. “Vergonha é roubar e não conseguir carregar, minha filha”; “Quem não tem algo de bom a dizer, não diz nada (descobri que isso é algo que o filósofo Esopo dizia, veja só você)”… entre outras coisas.

Minha bisa se foi há mais de uma década, linda, jovem como eu sempre sonhei em ser aos 92 anos de idade. Ficou a lembrança da pele delicadíssima e da sabedoria que só tem quem vence o tempo dentro de si.

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Sara e as pressões sociais

Alice não tem a orelha furada. Sara tem. Muita gente pressiona para que Alice tenha as orelhinhas furadas, muitas o fazem na frente de Sara. Sara não entende porque que as orelhas de Alice não são furadas, já que as dela são e todo mundo diz que tem que furar. Sara não se contenta em guardar incômodos. Sara pergunta.

– Mãe, porque Alice não tem as orelha furadas?

– Porque ela é pequena e ainda não pode decidir se quer ou não a orelha furada.

– Mas porque a minha é?

– Porque mamãe era nova, bobinha, e não sabia muito sobre as coisas e as pessoas pressionaram a mamãe para furar sua orelha ainda bebê.

– Mamãe não é mais bobinha?

– Não e nem vocês serão. A gente tem que fazer o que é bom pra gente, porque queremos fazer e não porque os outros dizem que temos que fazer. Quem sabe da gente é a gente mesmo.

– Eu tenho brincos…. posso tirar se quiser?

– Pode. Você quer?

– Não, eu gosto de meus brincos. Então pode ficar e, se um dia sua irmã quiser, ela também pode ter.

– Quando ela quiser, né mamãe?

– Só quando ela quiser, filha.

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O jardim

Havia um jardim extremamente fértil, mas um pouco abandonado. Algumas vezes alguém aparecia, cuidava, mas logo esquecia, e as ervas daninhas cresciam desordenadamente. Mas havia um jardineiro em especial – que não era lá muito bom no manejar do jardim – mas que estava sempre rodeando. De vez em quando até podava uma árvore, plantava uma flor, mas não conhecia muito bem o terreno e as ervas daninhas e não compreendia como elas continuavam a surgir – embora ele acreditasse cuidar daquele lugar. Até que o jardim se viu completamente tomado pela sombra e pelo mato. Parecia que não nasceria mais nada dali. Mas o jardineiro – insistente – continuava ali, cuidando para que ainda existisse pelo menos um canto de luz. O jardim até tenta explicar sua sombra ao jardineiro, tenta fazê-lo compreender seu solo e que é necessário mais que água e flores para torná-lo o lugar especial de outrora, mas próprio jardim já perdeu as esperanças de ser o que era – nada nunca o será. O jardineiro, ao sentir isso, em vez de se embrenhar nas sombras e arrancar o mal pela raiz, fica esperando que o jardim faça isso por si só. Acredito que nem o jardim e nem o jardineiro entenderam que isso é um trabalho conjunto, que se não for junto, nada mais há de crescer ali que não seja daninho.

Cris

29/06/2013

 

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Alice e a empatia

Mamãe assumiu de vez o papel empresária do lar feat mamãe em tempo integral e isso eleva o nível de estresse em alguns graus. Depois de um dia inteeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeiro organizando, vem Alice e abre o armário de vasilhas e começa a puxar tudo pra fora.

Mamãe: – Aliceeeeeeee, nããããããoooooooo! – Me ajoelho, afasto Alice do armário e fecho a porta com mais força que o normal.
Alice ( olhando nos meus olhos e com a mãozinha fazendo carinho no meu rosto): – Ti foi, MA-MÃE? Ti foi?

Vrááááá na minha ‘ignorança’.

#bogoguinha #carinho #momentoespecial #filhasobremedida

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Sara a a falta de diversidade

É tempo de manga, minha gente! Tem espada, tem rosa, tem de todo tipo e toda sorte, catada e recolhida, gelada ou fresquinha. E aqui a fartura tá demais. No carnaval do Rio pode ter dado Beija-Flor, mas por aqui só se vê Mangueira!!! Hahahaha

Passando o feriadão na casa da vovó, Sara aproveita e enfia o pé na jaca! De manhã cedo disse a avó:
– Quero suco de caixinha!
Vovó Khay: – Mas essa hora da manhã e em casa? Não precisa. Você tem que tormar mais sucos naturais, da fruta…
Sara responde, constatando o óbvio: (vizualize uma guria de 4 anos indignada e com braços expressivos) – Mas vovó, mas aqui só tem manga (mãozinha da direita); manga (mãozinha da esquerda) e manga ( mãozinha da direita de novo)….